quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Outro...


Ela gosta de outro.

No amor, a paciência é inimiga da perfeição. Não se nasce para assistir ao amor, mas para contracená-lo. Nunca aceite o papel de conselheiro, que vai torná-lo inofensivo. Dificilmente ela observa um amigo como um provável namorado. Se achar que conhece você, não existe mais possibilidade de encantamento. Seja misterioso, imprevisível. Ela terá que ficar intrigada, ávida por descobrir o que deseja. Não deixe que descubra nunca! Use o humor para vê-la rindo de um jeito bonito. Procure elogiar detalhes, algo que não se repara facilmente. Evite desancar e criticar os amigos de sua musa, ela passará a defendê-los. Faça de conta que o outro homem nem existe para ela aprender a se desinteressar por ele.
Par perfeito. Será que existe?Não, não existe. Essa história de alma gêmea é incesto. A gente não nasce para casar com a nossa imaginação, senão ficaríamos solteiros a vida inteira. O importante é encontrar uma mulher que nos desafie, nos questione, nos faça pensar diferente. Amar é tirar férias de si mesmo, conhecer outros hábitos e gostos, descobrir que se aprecia, por exemplo, o odiado chuchu. O que não é planejado emociona bem mais do que confirmar expectativas. Ser elogiado constantemente é chato, cheira a bajulação. Não se deve procurar uma mulher para dizer amém, mas para interromper o narcisismo e derrubar os deuses. Sou favorável à espontaneidade e improvisação. Ter algo para aprender é motivo de festa.


( Fabrício Carpinejar )

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Tempo


- Estão vendo aqui, meus queridos? Essa era a foto de vovô no primário. Esses aqui eram meus coleguinhas. Perdi contato com eles logo que saí de lá. Fui pra outro colégio. Esse aqui, ó. Aqui já sou eu no ginásio. Eu e a turma da pelada. Tem umas das meninas ali atrás também. Apesar de jogarmos sempre juntos, nunca nos demos muito bem, não. É que eu era meio introvertido nessa época, sabe? Bem, aqui eu já tou mais velho. Olha como meu palitó era bonito. Meu avô que me deu. Já pensou, meus filhos, meu avô? O avô do avô de vocês? Pois é. Já era um homem bem velhinho... Mas gostava tanto de mim... Assim como eu gosto de vocês, claro. Continuando... Esses aqui eram meus colegas de turma do científico. É... Ninguém gostava de mim. Essa aqui eu já tava na faculdade. Eram gente boa. Mas desatinados, sabe como é? Eu não andava muito com eles. Mamãe não deixava... Na verdade, eu é que não queria mesmo. É... Não, essa não. Pula essa. Tou feio nela. Ah, essa aqui. Eu e o pessoal do escritório. ... Todos me odiavam. Depois de um tempo, eu que assumi a chefia de lá. Ah, bons tempos. Booons tempos. Bem, agora vão, meus filhos, que a mãe de vocês tá chamando. É... Muito tempo se passou. Juntei muitos inimigos e fiz muitas inimizades desnecessariamente. Pensando bem, tudo o que me resta fazer agora é descobrir os telefones deles e ligar pra saber se eles já morreram.

Eu me mordo de ciúme




O ciúme é tão forte que se costuma falar "ciúmes", no plural, mesmo quando é singular. Ciúme não é ruim desde que não revele autoritarismo, desde que seja pertinente a uma situação, não a toda hora, como uma paranóia despropositada. Precisa ser economizado para os momentos de ultrapassagem dos limites, senão vira fantasia mórbida. Se ele surge sempre, sem motivo aparente, é irritante e inconveniente. Poucos suportam. Quando aparece raramente, indica interesse e carinho. É bom dizer para quem se ama: "Quero que seja livre em mim, não de mim". Tirar a liberdade do outro é sacrificar a própria liberdade. Com o ciúme exacerbado, você procura um motivo para se separar, não para permanecer junto. Procura a suspeita, não a lembrança. Procura o fim do amor e esquece de viver o que o gerou. Com medo de sofrer uma eventual separação, antecipa a separação para sofrer tudo de uma vez. Desperdiça-se a vida em um estado permanente de desconfiança. O que é pior: conviver com a amargura de traições sucessivas infladas pela imaginação ou ser traído? Ainda acho que correr o risco da traição é mais confortável e justo do que pressenti-la a cada momento. Qualquer um pode ser traído, mas não é possível tomar a infidelidade como regra. Acentua o clima de desgaste e de esgotamento, de confronto e de expiação, que levará ao término da lealdade e, infelizmente, às autênticas traições.


( Fabrício Carpinejar )

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

"... E engula o choro!"

Coitados de nós, que ouvimos isso durante a infância inteira. Levávamos cinturõezadas e puxavantes de orelha comparáveis - se não superiores- às torturas medievais da Santa inquisição. E nem podíamos reclamar.
Apanhávamos sorrindo, achando bom. Hoje feriria os conceitos dos direitos do homem e do cidadão, do estatuto da criança, de vinte ongs, da sociedade das mães-superprotetoras e da sociedade protetora dos animais.
... E tome outra chinelada na mão pela malcriação. E engula o choro!
Não, não. Fora os ressentidos e os vingativos, muitos dos que cresceram sentindo essas frases não repetirão os feitos de seus pais. Marcou - não, traumatizou - sua infâncias. Não quererão isso para seus filhos. Decisão acertada - mesmo não tendo, entretanto, muito a ver com nenhuma sociedade protetora daquilo ou princípios éticos disso.
Engolir o choro foi uma das coisas mais tristes que meu pai me disse. Não é apenas o choro que se está a deglutir; junto com ele descem o pouco de orgulho e amor próprio que uma criança tem e que o adulto que ela formará terá. Derramar lágrimas faz bem. E é bom, embora não pareça - mas só não parece porque quase nunca está acompanhada de uma situação que seja boa. Prantear umidifica os olhos, e - certamente - tem alguma coisa especial - nego-me o biólogo para confirmar hormônios - que nos conforta a mente. Tem os que choram escondidos, silenciosos. Vão para um canto escuro onde se esparramam e deixam que as lágrimas façam o mesmo. Tem os que choram só nos ombros dos amigos - e têm que pendurá-los pra secar depois ou jogá-los fora. Tem os espalhafatosos, que arremessam seus pesares aos quatro canto. E, claro, os que precisam de atenção, frágeis rolos de papel higiênico. Mas todos choram - principalmente aquele que anda de regata para exibir os músculos e alega tal atitude ser digna única e exclusivamente de homossexuais. E choram para sentir-se bem. Aquela vontade de jogar para fora o ar, e, com ele, o que nos machuca, vem bem juntinho a reviravolta, um nervous break-down. E ninguém precisa mandar que você o engula. Ele cessa naturalmente, conforme a necessidade físico-psicológica.
Uma lágrima também não se enxuga. Quando desce, desce foice, sulcando a terra do rosto para que entranhe nossas tristezas - e que ali fiquem armazenadas. Isso talvez explicasse porque, na idade, as maçãs do rosto viram maracujás enrugados. Uma lágrima realmente não se enxuga. É querer ficar imortal com o Emplastro Brás Cubas - que só assim serviu ao velho Machado. Tentar apagá-la do rosto é tentar dar à mente a doce ilusão de que não se precisa mais dela.
O pranto que cai é um grito de socorro que ecoa para os que sentem a linguagem, a poesia mesmo do corpo. Os que não, bem, esses podem lhe oferecer um lencinho. (Ou nem isso. Ah, os velhos tempos...)


***


"Menino que vai pra feira
Vender sua laranja até se acabar
Filho de mãe solteira
Cuja ignorância tem que sustentar
E madrugada vai sentindo frio
Porque se o cesto não voltar vazio,
A mãe já arranja um outro pra laranja
- e esse filho
Vai ter que apanhar
'Compra laranja, menino, e vai pra feira!'"

- cantou minha musa, muito antes de mim.

domingo, 25 de novembro de 2007

Homem da Sacola

Praia do Futuro – há uns, talvez, vinte dias. Não sei. Hoje não tenho mais a noção do tempo que passa. Morava sozinho, e gostava de esporadicamente ir a praias – ia sozinho mesmo. Levava sempre sua sacola com os pertences nessas ocasiões. Odiava o apelido que ganhara por isso. Era o homem da sacola para os pivetes que, ousadamente, ainda lhe pediam trocados.
A última dessas idas não tinha sido diferente neste aspecto; tudo corria absurdamente comum até quando reencontrou um de seus amigos ainda dos tempos da faculdade, o que considerava o melhor deles, com quem perdera contato – e que assimilara o hábito de aproveitar o vasto litoral. Estavam ambos sozinhos, e passaram o dia juntos, relembrando os bons tempos.
Hora da fome, trocaram de roupa e sentaram para comer numa daquelas barracas adjacentes. Beberam aos bons tempos. E às mulheres. Ah – as mulheres daquele tempo. (E os bons tempos com as mulheres daquele tempo). Dona Rosa, Jasmim, Violeta, Margarida... O jardim inteiro.
Despediram-se e cada um seguiu seu caminho. O homem da sacola chegou em casa e deu-se conta: esquecera sua sacola. A crise que rapidamente lhe abateu fez com que desesperadamente fosse à procura de sua sacola, mesmo não contendo nada de grandes valores: apenas calção, toalha e um óculos de sol velho.
Metódico que era, refez todo o percurso do dia. Foi da águas da praia já enegrecidas pela pouca contribuição da lua, ao lugar onde bateram bola, até que chegou ao boteco. A garçonete lembrou-se do peculiar homem ainda em traje de praia, apesar da tarde hora. Sorriu. Percebi que o senhor tinha esquecido e guardei aqui, pode pegar. Obrigado. Sorriu de volta. Segurou as alças – agora recuperara sua identidade, e voltou contente pra casa.
Eu tinha sono. Ia deitar-me. Resolvi antes, porém, guardar os itens que há pouco recobrara. Levantei-me, desfiz o nó usual. Ia já retirar o conteúdo quando deparei-me com um bilhete. Me desculpe pelo roubo. Me ligue. O número estava logo embaixo, mas não dei muita atenção. Retirei os itens. Minha toalha. Meus óculos. Minha sunga não estava lá. Puxei o último item: a peça de baixo de um biquíni. Me ligue...

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Motivações

Tinha eu um amigo, o Simplício, o qual sempre dizia ao saber que alguém metera uma bala nos miolos:
- Ué! Por que é que ele não pôs o revólver no prego?
Para ele, a razão óbvia só podia ser a falta de dinheiro – pois isso se passava naqueles áureos tempos de miséria estudantil.
Anos após, chegaríamos ambos a esse lugar-comum de que dinheiro não traz felicidade, coisa um tanto discutível como quase todos os ditames da sabedoria popular. Aliás, já escrevera um poeta: “O dinheiro não traz ventura, certamente./ Mas na verdade vos digo:/ sempre é melhor chorar junto à lareira quente/ do que na rua ao desabrigo...”
Não, não estou brincando com as desgraças alheias: eu só brinco com as minhas.
Nunca achei tampouco que se deveria glosar tal coisa. Tanto assim que certa vez duas moças me abordaram na rua:
- É só uma pergunta. Estamos fazendo uma pesquisa. O que é que o senhor acha do suicídio da Marilyn Monroe?
- Não tenho competência para tratar do assunto, porque eu nunca tive a coragem de me matar.
Uma justificativa? Qual nada! Sempre desconfiei desses escritores apologistas do suicídio mas que jamais recorrem ao único argumento válido, com o seu próprio exemplo.
A única opinião, aliás, que me veio a esse respeito foi de uma casual conversa, quando íamos pela rua da Praia, o dr. Vidal de Oliveira e eu. Estávamos em 1941. Acabara ele de traduzir O drama de Jean Barois. Ora, essa novela do autor de Os Thibault focalizava o Caso Dreyfus, que enchera durante anos os romances franceses, rivalizando em insistência com o Caso do Colar da Rainha do tempo dos folhetinistas românticos. Aquele grande escritor já vinha tarde. Pois bem, perguntou-me o saudoso amigo:
- Que achaste o Jean Barois?
- Chato!
Ele, que adorava o livro, parou, indignado:
- Mario! Por que tu não te matas?
- Não posso, eu quero ver no que vai dar esta guerra. Quero ver o que será do Hitler, o que será do Mussolini... o que será de nós.
Pois só após esse diálogo histórico (estávamos em pleno bombardeio de Londres) é que acabei dizendo para os meus pobres botões: sim, o suicídio só pode ser uma falta de curiosidade, uma grande falta de curiosidade...



Mário Quintana





(transcrevi o texto de Quintana em resposta ao meu próprio, anterior a este)

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Adeus

Mãe, endereço esta carta a você. Peço que, por favor, não a molhe. Meu sangue é que está aqui escrito, e, se misturado a seu pranto, ficará incompreensível.


Se você lê esta carta é porque é tarde demais, mãe. Para mim. Não para você e certamente para ninguém mais, pois sou só um traço em suas histórias. Eu só escrevo em educada resposta aos cuidados que sempre ganhei, pois meu desabafo está mesmo na bala que deve ter estourado meu crânio a estas horas.


Admiro você, mãe, por ler esta carta. Você todo dia faz a escolha mais difícil e desagradável: resolve acordar e viver. Você lê minhas memórias, as de seu único filho, e agüenta, forte. Dizem que viver - ou a vida - é justamente a própria vontade de viver. Foi o que me faltou. As incontáveis e inconsoláveis vicissitudes foram o bastante.


Ora, que sentido há em viver se só se sofre? Ou se se sofre muito mais que se goza? Se se vive, se deseja; se se deseja, se sofre. E eu, mãe, eu desejava. Inda assim estou certo de que fiz minha melhor escolha. É, às vezes, necessário mais coragem para viver que para se matar.


Você me ensinou a não acreditar em anjos ou demônios, pois certamente eles viveriam nesta terra. Não acredito no paraíso, mãe, mas estou certo de que estou num lugar melhor que a vida. Sou pó agora, como todos serão um dia. Isso não deveria angustiar a nenhum ser vivo, posto que já todos foram pó uma eternidade antes, e o espaço de sua existência é irrizório e insignificante se comparado com a infinitude antes de depois.


Escrevo também para agradecer. Meus amigos, diga-lhes que foram os melhores. Poucos, mas sempre suficientes. Minhas paixões, diga-lhes que em eternidades as amei profundamente. Agradeço a você também, mãe, por me ter dado o direito à vida - que, com minha liberdade de escolha, neguei.


Minha decisão foi ponderada, e cada detalhe teve um bom motivo. Minha morte foi instantânea, não sofri. E mais: nada me faria sofrer tanto quanto ainda estar em minha insignificante e desequilibrada existência. Nunca fui depressivo. Dei fim àquilo que não me convia antes que chegasse. Aproveitei tanto quanto pude, e, creio, tudo o que pude. Infelizmente, não consegui amar a vida para justificar meus excessos tanto quanto vim a amar humanos injustificavelmente.


Mãe, meu silêncio hoje lhe diz boa sorte - e seu soluço me diz boa noite. Cuide-se como cuidou de mim.


segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Inconfesso desejo


" Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo "
Carlos Drummond de Andrade

domingo, 11 de novembro de 2007

A pipoca

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-mo a algo que poderia ter o nome de ‘culinária literária’. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos. Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A festa de Babette, que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como ‘chef’. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo - porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela.

Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristãos, religiosos, são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblê baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblê...

A pipoca é um milho mirrado, sub-desenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblê? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa - voltar a ser crianças!

Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão - sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: pum! - e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. ‘Morre e transforma-te!’ - dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário professor-pesquisador da UNICAMP, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas ‘piruá’ é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: ‘Fiquei piruá!’ Mas acho que o poder metafórico dos piruás é muito maior. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: ‘Quem preservar a sua vida perde-la-á.’ A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira... (O amor que acende a lua, p. 59.)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Uma de Quintana...



Não quero alguém que morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando. Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade. Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim... Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível... E que esse momento será inesquecível...
Só quero que meu sentimento seja valorizado. Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho... Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento... e não brinque com ele. E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão... Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena!!!”

Mário Quintana

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

(em) Minutos


Estava, naquele dia, junto à janela. Não era o costumeiro - queria experimentar novos ares. O passeio ia bem. Regular, na verdade. A mesma velha cidade.
Também não costumava observar os que entravam e saíam. Dessa vez, entretanto, não era uma das mesmas velhas pessoas que entrava. Exalava primaveras e violetas. Sentou-se na minha frente.
Seria indelicadeza não notar que traços suaves - até finos - tinha. Formatos bem calculados, simétricos. Madeixas escarlates, fazendo incendiar até ao mais desavisado. Um quase imperceptível cordão dourado que se perdia em sua candura angelical.
Pensei em tocar-lhe. Dizer-lhe o quanto lhe queria. Não, pensei, não gostaria que me perturbassem, fosse eu.
Era o divino, eu, o profano. Este não ousa aproximar-se daquele. Um teme sua pureza. Sua perfeição. O outro, seu desprezo. Mas como um ímã, atraem-se. Temem-se e vivem em profunda conjunção carnal. Completam-se, enfim.
Assim éramos. Embora provavelmente só eu o percebesse. Pensava em como éramos iguais. Em como pensávamos iguais. Mesmas crenças - ou descrenças, amores, ódios, medos e modos. Em como nos beijaríamos, apaixonados, ao final de uma comédia romântica. Mas essa era minha tragédia grega. Eu estava a ser castigado por um crime que não cometera. Diria Sófocles ter algo a ver com males cometidos pelos meus antepassados. Pois saiba que, naquele momento, sem hesitação, trocaria todos os antigos espíritos que, biologicamente falando, permitiram minha existência por um momento nosso a sós.
Tornar a amar fez-me bem. Amar profundamente; tão profundamente que o ato de fazê-lo torna-se o real adorado; amar o fato de amar. Ou só o poder amar.
Amei, sonhei e pensei o mundo em instantes. Também em instantes o ônibus parou, ela desceu, e me dei conta de ter me apaixonado, sofrido, matado e morrido em tão breve espaço de tempo. O ônibus retomou seu trajeto logo em seguida e levou todo o amor que poderia ter sido - e que não foi.