segunda-feira, 26 de novembro de 2007

"... E engula o choro!"

Coitados de nós, que ouvimos isso durante a infância inteira. Levávamos cinturõezadas e puxavantes de orelha comparáveis - se não superiores- às torturas medievais da Santa inquisição. E nem podíamos reclamar.
Apanhávamos sorrindo, achando bom. Hoje feriria os conceitos dos direitos do homem e do cidadão, do estatuto da criança, de vinte ongs, da sociedade das mães-superprotetoras e da sociedade protetora dos animais.
... E tome outra chinelada na mão pela malcriação. E engula o choro!
Não, não. Fora os ressentidos e os vingativos, muitos dos que cresceram sentindo essas frases não repetirão os feitos de seus pais. Marcou - não, traumatizou - sua infâncias. Não quererão isso para seus filhos. Decisão acertada - mesmo não tendo, entretanto, muito a ver com nenhuma sociedade protetora daquilo ou princípios éticos disso.
Engolir o choro foi uma das coisas mais tristes que meu pai me disse. Não é apenas o choro que se está a deglutir; junto com ele descem o pouco de orgulho e amor próprio que uma criança tem e que o adulto que ela formará terá. Derramar lágrimas faz bem. E é bom, embora não pareça - mas só não parece porque quase nunca está acompanhada de uma situação que seja boa. Prantear umidifica os olhos, e - certamente - tem alguma coisa especial - nego-me o biólogo para confirmar hormônios - que nos conforta a mente. Tem os que choram escondidos, silenciosos. Vão para um canto escuro onde se esparramam e deixam que as lágrimas façam o mesmo. Tem os que choram só nos ombros dos amigos - e têm que pendurá-los pra secar depois ou jogá-los fora. Tem os espalhafatosos, que arremessam seus pesares aos quatro canto. E, claro, os que precisam de atenção, frágeis rolos de papel higiênico. Mas todos choram - principalmente aquele que anda de regata para exibir os músculos e alega tal atitude ser digna única e exclusivamente de homossexuais. E choram para sentir-se bem. Aquela vontade de jogar para fora o ar, e, com ele, o que nos machuca, vem bem juntinho a reviravolta, um nervous break-down. E ninguém precisa mandar que você o engula. Ele cessa naturalmente, conforme a necessidade físico-psicológica.
Uma lágrima também não se enxuga. Quando desce, desce foice, sulcando a terra do rosto para que entranhe nossas tristezas - e que ali fiquem armazenadas. Isso talvez explicasse porque, na idade, as maçãs do rosto viram maracujás enrugados. Uma lágrima realmente não se enxuga. É querer ficar imortal com o Emplastro Brás Cubas - que só assim serviu ao velho Machado. Tentar apagá-la do rosto é tentar dar à mente a doce ilusão de que não se precisa mais dela.
O pranto que cai é um grito de socorro que ecoa para os que sentem a linguagem, a poesia mesmo do corpo. Os que não, bem, esses podem lhe oferecer um lencinho. (Ou nem isso. Ah, os velhos tempos...)


***


"Menino que vai pra feira
Vender sua laranja até se acabar
Filho de mãe solteira
Cuja ignorância tem que sustentar
E madrugada vai sentindo frio
Porque se o cesto não voltar vazio,
A mãe já arranja um outro pra laranja
- e esse filho
Vai ter que apanhar
'Compra laranja, menino, e vai pra feira!'"

- cantou minha musa, muito antes de mim.

Nenhum comentário: