segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Adeus

Mãe, endereço esta carta a você. Peço que, por favor, não a molhe. Meu sangue é que está aqui escrito, e, se misturado a seu pranto, ficará incompreensível.


Se você lê esta carta é porque é tarde demais, mãe. Para mim. Não para você e certamente para ninguém mais, pois sou só um traço em suas histórias. Eu só escrevo em educada resposta aos cuidados que sempre ganhei, pois meu desabafo está mesmo na bala que deve ter estourado meu crânio a estas horas.


Admiro você, mãe, por ler esta carta. Você todo dia faz a escolha mais difícil e desagradável: resolve acordar e viver. Você lê minhas memórias, as de seu único filho, e agüenta, forte. Dizem que viver - ou a vida - é justamente a própria vontade de viver. Foi o que me faltou. As incontáveis e inconsoláveis vicissitudes foram o bastante.


Ora, que sentido há em viver se só se sofre? Ou se se sofre muito mais que se goza? Se se vive, se deseja; se se deseja, se sofre. E eu, mãe, eu desejava. Inda assim estou certo de que fiz minha melhor escolha. É, às vezes, necessário mais coragem para viver que para se matar.


Você me ensinou a não acreditar em anjos ou demônios, pois certamente eles viveriam nesta terra. Não acredito no paraíso, mãe, mas estou certo de que estou num lugar melhor que a vida. Sou pó agora, como todos serão um dia. Isso não deveria angustiar a nenhum ser vivo, posto que já todos foram pó uma eternidade antes, e o espaço de sua existência é irrizório e insignificante se comparado com a infinitude antes de depois.


Escrevo também para agradecer. Meus amigos, diga-lhes que foram os melhores. Poucos, mas sempre suficientes. Minhas paixões, diga-lhes que em eternidades as amei profundamente. Agradeço a você também, mãe, por me ter dado o direito à vida - que, com minha liberdade de escolha, neguei.


Minha decisão foi ponderada, e cada detalhe teve um bom motivo. Minha morte foi instantânea, não sofri. E mais: nada me faria sofrer tanto quanto ainda estar em minha insignificante e desequilibrada existência. Nunca fui depressivo. Dei fim àquilo que não me convia antes que chegasse. Aproveitei tanto quanto pude, e, creio, tudo o que pude. Infelizmente, não consegui amar a vida para justificar meus excessos tanto quanto vim a amar humanos injustificavelmente.


Mãe, meu silêncio hoje lhe diz boa sorte - e seu soluço me diz boa noite. Cuide-se como cuidou de mim.


Um comentário:

Anônimo disse...

Que sensivel...Me fez quere chorar, me lembrei de algumas pessoas que ainda estão vivas, e uma outra q morreu!!Lembrei tambem de pessoas q existiam dentro de mim, e a semelhança é assustadora...
´so espero meu querido...que isso q vc escreveu seja só mais um desabafo e n a explicação q antecede a ação...

Gosto muito de vc...e dos seus textos e dasnossas conversas, as vezes abate uam saudades e nessas horas quero ter um dia com 36 horas, pra ter aquele tempo livre..mas...u.u..n posso..pena!!

Cuide-se e fique em paz...(L)...

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